20 de set. de 2009
Será que é muito pecado?
E ficavam me perguntando porque eu estava com você. E você ficava no meio delas me perguntando qual intenção eu tinha, o que eu queria,e o que viria depois. E eu me pergunto: é mesmo obrigatório isto de saber qual intenção se tem, meu Deus? E o que acontece depois então?
Se eu soubesse, ah, meus queridos, eu já estaria a muitas léguas daqui andando com uma mochilinha e só alguns pertences em uma estrada qualquer para o meu destino. Mas não, não há como saber o que vem depois, há? Eu não vejo como. E sabe, às vezes sinto que tenho uma capacidade a menos que todas estas pessoas do mundo. Estas pessoas que andam cheias de si, que sempre sabem o que querem, e que parecem conhecer muito sobre tudo. E eu aqui só querendo saber um pouquinho mais sobre mim. Isto não são tão mesquinho?
Eu me conheço sim, mas ainda me faltam algumas respostas. E eu sei que estão aqui dentro, eu sei,só falta descobrir onde estão, oras! Isto é, se um dia eu descobrir tais respostas. Às vezes penso que só quando eu morrer mesmo vou acabar sabendo, isto é, se eu acabar sabendo quando morrer, talvez nem isto. Mas eu me conheço mesmo assim e o que importa é que estou viva. E tá, é meio verdade também que tem segredos que eu tento esconder até de mim, mas eu acabo descobrindo. Descubro sim ... quer ver só como não adianta esconder?
Pois estou eu atravessando a rua e pronto, tropeço numa pedrinha e os malditos segredos que guardei são arremessados sem permissão de dentro da caixinha em que os coloquei para fora. E não adianta tentar trancá-los, já aprendi isto. Tem vezes até que eles permanecem muito quietos sem me incomodar, mas quando querem vir, eles vem, e fim. Quem disse que eles se importam em magoar ou não? Nem estão aí. BOOM! E vem à tona.
Um dia destes em que me aconteceu de tropeçar em uma pedrinha, tive a impressão de que os meus segredos se derramaram de tal forma que as pessoas da rua puderam vê-los por alguns instantes. E ficaram ali espatifados na calçada. Tentei guardar, tentei ir catando um por um, mas tive a certeza de que os meus segredos podiam ser vistos mesmo do lado de fora, ainda que eu os guardasse. Fiquei me perguntando se o lado de dentro não devia estar tão cheio a ponto de transbordar. Sim, estava. Então me senti nua, como se todas aquelas pessoas da rua soubessem das marcas brancas de biquíni da minha bunda, como se soubessem de todas as pintas que carrego nas costas, e também daquela cicatriz que personalizei na altura do cox quando caí brincando de pega de bicicleta lá do alto da ladeira.Era como se todos soubessem, e me olhassem com aquela cara de quem sabe. E ficavam me perguntando porque eu estava com você, e você ficava no meio delas me perguntando qual intenção eu tinha, o que eu queria, e o que viria depois. E eu só queria dizer pra todos eles que eu nem tinha chorado no dia que eu caí e desenhei sem querer aquela cicatriz com o ferrolho dos pneus na altura do meu cox. Eu não chorei meus senhores, eu juro.
Eu também quis dizer pra eles que eu ficava com medo de ficar em casa só, e que tinha colado naquela prova de sociologia do final do bimestre passado,e que volta e meia eu me esquecia de tomar 2 litros de água por dia, e queria perguntar se era só eu. Se era só eu que tinha medo, se era só eu que não sabia, e se todo mundo tinha cheiro de suor como eu. E se todo mundo sempre sabe pra onde vai, e se todo mundo sempre sabe aonde as coisas vão dar ... Se o fato de eu não saber era muito pecado.O que eu sei é que você sabe do meu medo de ficar em casa só. Você, eu sei que sabe das pintas das minhas costas, das marcas de biquinis e até do desenho que eu personalizei na altura do cox quando caí de bicicleta, você, eu sei que gosta, apesar de saber. Talvez por isto que eu estive com você. Nem tudo tem resposta.Talvez seja por este motivo que as pessoas daquela rua acreditem em milagres, e talvez até eu acredite também. Milagres servem para o que não tem resposta, talvez por isto eu estive com você, ou talvez nem tenha um motivo... Porque eu pensei, pensei e nada. É muito pecado?
Seria tão mais fácil, sabe? Se a gente pudesse fugir para Roma amanhã e deixar o mundo pra lá, se eu largasse esses medos, largasse essa vida, se eu largasse tudo e te desse a mão para ir a algum canto. Mas a gente não vai. Não, nem adianta insistir. Fora dos grandes romances literários fugir é uma atitude bem covarde.E nem dá tão certo assim, sabia? A verdade é que a cicatriz que eu desenhei na altura do cox vai continuar existindo aqui, em Roma, em Paris, Chicago, ao seu lado ou não. Nem tudo tem resolução.E a vida vai continuar a latejar apesar das nossas feridas, e é assim que se faz bater meu coração e o seu, e é assim continuamos vivos e não morremos. Acho que a resposta é só essa. E o resto ninguém sabe, ou todo mundo sabe e eu não sei.

