9 de ago. de 2010

Meu testamento !

Tudo que nasce,morre. E ninguém nunca sabe para onde vai. Não sei quanto tempo leva pra esquecer. E esquecer não é simplesmente não lembrar, eu acho que é mais. Um processo longo e sem fim. Esquecer a gente nunca esquece. Não quero mais lembrar então, destas coisas que parecem estar quase mortas ou entaladas em algum lugar que dói e eu ainda não descobri.
Proponho que façamos um grande velório. Preciso enterrar todas as histórias. E as estórias também que eu inventei e que nem chegaram a ser,e que também não viraram sonhos porque eu acordei de repente sem ar na madrugada. Levantei. Fui até a cozinha procurar um copo d’água. Sentei e comecei a escrever.

Minto, antes de começar fiz uma longa... pausa... para te olhar. Tentei acompanhar o ritmo da sua respiração funda e lenta enquanto dormia. Achei seu arfar um tanto afável: o músculo endurecido do meu coração se retraiu primeiro,mas depois, mesmo um tanto receoso relaxou e se deixou levar. Minha respiração inquieta me deixou descansar por alguns instantes enquanto eu seguia o seu ritmo, mas eu não consegui imitar a sua paz por muito tempo.

Foi apenas o instante dos seus olhos sonolentos conseguirem se abrir até o meio, fraquejando logo após de me fitar, e você arquejou a boca como se fosse me dizer algo se não estivesse tão cansado. Talvez em outro tempo eu até insistisse em ouvir , mas desta vez não. Quis apenas contemplar aquele silêncio para começar a escrever. Escrever não sei para quê e nem para quem, mas senti total necessidade. Talvez escrevendo eu pudesse definir um fim para esta história, melhor então passar para o papel – pensei – uma vez que sei lidar melhor com a caneta que corre em minhas mãos firmes, porque só assim elas sabem ser firmes, pois só assim eu saberei ser firme.

Meus finais todos são dotados de drama, de silêncio e de madrugadas também. E de mortes, assim como são dotados todos os finais. Sei que tudo isto está morrendo mas não faço idéia para onde vai. Não quero saber. Sei que depois do enterro vem a vida que segue, que continua cruel ou felizmente, nos mostrando que o mundo gira e que a vida lá fora sempre vai continuar existindo, mesmo que eu me assassine um pouco... mesmo que eu mude de idéia e queira morrer. Quis deixar então um testamento, como prevenção, por saber que as madrugadas acabam e que depressa vem o depois.

Mas não há muito o que eu queira deixar neste testamento, eu até poderia deixar algumas marcas, mas estas eu quero que sejam apagadas. E todos os sorrisos, os abraços, os planos, e os rancores também. Isto também morre junto. Tudo o que houver de mim eu retiro e levo comigo, inclusive as minhas palavras. Esqueça das minhas palavras.Quero deixar no meu valioso testamento apenas uma sagrada esperança de que tudo vai dar certo e um novo entusiasmo para os dias que virão.

De resto não vale a pena cantar a hipocrisia, não quero lhe desejar nada que não seja verdadeiro. Deixo então o silêncio. E o barulho da palavra que quis escapar da sua boca e que nunca saiu, o som falho interrompido pelo cansaço que repousou no seu sono. Deixo o arfar inquieto do meu peito enquanto velava você dormindo. Te deixo a cor das minhas olheiras, e por fim, deixo a minha insônia descançando em paz em cima do teclado, repousando ou deixando-se abater, enquanto se ouve o baque sutil da trinca da porta do meu quarto sendo violada, o sopro do vento vindo de fora, os sorrateiros passos se afastando sem se despedirem pelo corredor da casa.

Deixo o frio de acordar sem uma meia dos pés, e sem você ao lado. Pra sempre.

Amanheceu o dia.

2 comentários:

Larissa disse...

Tudo o que nasce, morre.

Mas o enterro possibilita a chance do desenterre. Creme.

Beijos

Anônimo disse...

Adorei! Você escreve tão bem! Visitarei mais vezes! :))
xxx

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