Confesso! Dos verdadeiros e sinceros eu não esqueci, não os abandonei, estão aqui comigo.. esses eu trouxe à tira colo. Os outros eu tambem trouxe mas os deixei junto com uma mala pesada de roupas sujas, que não combinam nenhum pouco com a vontade de fazer mil coisas que eu tenho, então embrulho, deixo guardada dentro da frasqueira para quando o ânimo bater de súbito. Tenho esta esperança de que o ânimo uma hora vença o cansaço, embora eu passo todos os dias corretivo com vontade de dar um pouco de paz para as minhas olheiras amigas, (ultimamente as únicas companheiras que tem me agüentado sem reclamar de nada, nem do meu mau-humor e nervosismo à toa, vejam só), estou muito grata à elas.
E, (por mera gratidão) vez ou outra, até consigo regá-las com as lágrimas mais sinceras que eu tenho, para que floresçam. Mas não é sempre que dou esta sorte de estar fértil, úmida, chorosa. Não é sempre que eu consigo. Queria ter vontade, é tão chato estar seca, e o nervosismo é seco. É explosivo, mas seco. E o mau-humor é seco, farpado, mas seco. Neles, de fato,não há nada produtivo. É terra árida mesmo, diferente do choro.
O espantoso no meio disto tudo sou eu conseguir sentar pra ler um livro e me distrair. E isto não era pra ser bom? Não sei se é, sinceramente. Tem horas que eu preferia entrar em curto-circuito, dar pane, soltar o grito, o verbo, o amargo, sair pelada na rua rindo da cara dos outros e apontando só pra levar um soco na cara de um estranho, jogar a merda no ventilador, ver tudo voando pra todo lado, sangrar, beijar meus machucados, arrancar a casquinha, pular de cima da ponte para um rio, fazer um circo, deitar no chão e me debater até cansar, sem ter ninguém pra me dar colo, não, eu não quero! Eu quero sofrer, não me encostem, nem me estendam a mão, me deixem sofrer, por favor! Juro que eu queria. E depois, me levantaria discretamente, sacudindo a poeira do corpo, saindo de fininho com a cara e a alma mais lavadas do mundo e fingiria que nada houvera acontecido. Dizendo com alívio: "- Pronto, passou."
Queria reaprender a me permitir ao sofrimento. Mas não! Eu insisto em continuar, e não me abater ( mas não é porque eu quero) é porque depois de tanta coisa vivida eu andei aprendendo que fazer alarde não resolve nada mesmo. Então a gente aprende a se adaptar, encarar, conformar, deixar pra lá, não ter vontade de chorar, dizer (no máximo) "que pena", abrir mão e viver. Simples! Dizem que isto é amadurecer...
Mas é assim? Tive dúvidas no começo. É assim mesmo? Assim que as coisas se dão, tão facilmente, e eu não sabia? Sem nenhum complexo, nenhum trauma, e nenhuma graça?
E, se preparem, porque aí vem o pior, (vou escrever em letras minúsculas porque me envergonho) : não é que eu tenho tirado proveito desta coisa toda? É, desta tristeza (não é bem tristeza porque não me sinto verdadeiramente triste, mas não sei ao certo como definir, então vou usar a palavra tristeza mesmo,e vocês , me desculpem de antemão pela falta de interesse em criar outra palavra). Não é que justo desta tristeza tem me surgido toda a inspiração para escrever, sair, conversar ou simplesmente pensar?! Fico indagando como pode uma pessoa tirar proveito,achar isto lucrativo? Me sinto um pouco egoísta. Tanta gente no mundo querendo sair da fossa, e eu achando ouro nela.
Estou me sentindo confortável,este é o pior: estou bem. Sem nem me preocupar em me desesperar – que nada! – Tudo bem, levanto da cama num pulo e vou na esquina comprar uma revista para ler em casa, sozinha. No caminho de volta passo na padaria e compro dois pães, um pra agora e outro para amanhã bem cedo. Então, antes de abrir a porta novamente eu penso : E as pessoas que me escorreram pelos dedos? - Eu lamento. - E todos os momentos que não se repetirão?- Lamento. - E a falta que deixarão? - Lamento também.- O que há comigo? Que não escreveria este texto por nada, não achando necessário, se não fosse por muita insistência de mim mesma e das minhas olheiras, que não me deixaram ir dormir simplesmente ignorando os fatos e me fizeram sentar, parar e escrever. Para quem? Por que? Com qual finalidade? Não sei , e lamento não saber.
Acho que o pior que uma pessoa pode dizer nessas horas é "eu lamento." Mas que diabos de expressão inútil é essa? "Eu lamento". Lembro de uma vez em que eu fui ao médico para descobrir que a minha
"- Eu lamento, muitíssimo."
No momento exato em que ele terminou de falar me surgiu uma vontade enorme de lhe enfiar uma bifa na cara e dizer : " –É mesmo isso tudo o que você vai fazer? Depois de todos os exames, tratamentos, você volta aqui pra me dizer que lamenta muitíssimo? É isso o que você tem a me dizer? Como assim, eu lamento?”
Saibam que lamentar, além de ser a pior coisa a se fazer, também é a pior a se dizer. Mas, infelizmente, é o que eu tenho escutado de mim mesma ultimamente, à contra gosto. Inclusive, tenho escutado muitas coisas de mim, ou melhor, daquela voz que tudo sabe e que existe em algum canto escondido da gente, nos falando coisas que nem a gente sabe que sabe.
Tenho a vontade de perguntar muitas coisas a esta voz, mas esta é uma voz teimosa que só aparece quando quer, e enquanto isto eu tento de todos os modos (mentalmente, por escrito ou em voz alta como uma louca embaixo do chuveiro) fazer com que ela me escute: E esta saudade monstruosa com que eu me cubro todos os dias antes de dormir para me proteger do frio? O que fazer com ela? O que fazer quando se descobre, no susto, que saudade não mata? O que há a dizer quando se vive de saudade?


2 comentários:
O tempo escorre pelos dedos mesmo. também estou sofrendo disso: falta de tempo, falta de ânimo... vamos torcer para que o ãnimo possa realmente vencer o cansaço algum dia...
Beijos
Deoses!!
Já me senti da mesma forma!!
Um vazio imenso como o espaço aberto do mundo!
O que há afinal? Nascemos para sofrer e nós render?!
Acho que a resposta cabe a cada um....é sempre assim no final!
Texto encantador, apesar das nuances cinzas!
Postar um comentário