9 de nov. de 2010

Nua

A chuva sempre fora para mim motivo de ser alegre. E correr nela era como ser dona daquela água toda e da imensidão do céu.
Então pisava nas poças para ver a lama dançando junto comigo, achava lindo, lindíssimo.
Achava também que todo mundo fica mais bonito debaixo da chuva. Que todo mundo deveria ser amigo do vento pra ver que correr contra ele não doía não. O vento sempre foi um amigo tão bom no meu conceito porque foi o único amigo que eu encontrei que não me maltratou quando fui contra. Pelo contrário. Eu amava correr contra o vento na chuva, e dançar e cantar. Era uma coisa tão boba...mesmo assim me sentia imensa na chuva como se o céu todo pudesse caber naquilo e eu aplaudia quando a chuva vinha. E a chuva vem na maioria das vezes de surpresa e eu morria de saudade dela quando esta só ameaçava vir e não vinha... pois então quando me pegava desprevinida na rua eu não me importava. Até sorria, porque criança não tem motivos para não gostar da chuva.

Hoje está chovendo lá fora... Desliguei a música que estava ouvindo para escutar a chuva. Este som de gosto doce. Barulho de chuva. Estou dentro de casa e com a janela fechada não dá para sentir muito o cheiro que me lembra a felicidade. É. Creio que se a felicidade pudesse ter um cheiro seria o de terra molhada por chuva. Por chuva lenta com pingos espessos, que é o tipo que mais me faz ser alegre.

Está chovendo desde cedo para dizer a verdade. Mas é que eu estava muito preocupada em não molhar os livros que comprei ontem antes de entrar no ônibus. Sentei na poltrona aflita por me livrar dos pingos que escorriam dos cabelos um pouco encharcados, e que mesmo depois de úmidos ainda me faziam tremer de frio. Não me lembro de antes ter sentido frio com a chuva. Quero dizer, não este frio que dói, que fica espetando o peito da gente. O frio que eu sentia antes era tão gostoso quanto lambuzar a ponta do nariz numa lambida no sorvete. E aí eu cheguei em casa, tomei um banho quente e vim pro computador, quase esquecendo que chovia. Acho que a chuva até deve ter se decepcionado um pouco, porque deu trégua. Senti toda a culpa.

Só agora percebo-a. E o quanto ela está triste! Me senti inteiramente melancólica com a chuva. Fui até a porta e fiquei quieta espiando. Não me achei digna de ir e me infiltrar lá debaixo. Sei lá, me sobrou muita saudade de fazer isto mas me faltou aquele ânimo ingênuo e sem vergonha que finge se esquecer de que a mãe vai brigar quando chegar em casa. Senti falta de me sentir parte da chuva, de ser inteiramente pura, inteiramente boba, inteiramente alegre, inteiramente transparente. Comecei a pensar que crescer não é mais se tornar um monte de coisas. Nem ser dona do mundo como eu pensava que eu fosse ser. Eu queria ser bailarina... e eu percebi que eu já havia sido a mais bonita bailarina de todas quando dançava debaixo da chuva e que sem ela era mesmo impossível de ser. Hoje até estudo música e dança, mas não é para ser bailarina. Não dá pra ser porque crescer também é deixar de ser um monte de coisa. Descobri que ganhar o mundo não era nada,porque eu havia deixado de ser a dona do céu. Tive vontade de chorar sem ter bem um por quê.

Tive vontade de ser mais humilde nessas horas e não ter vergonha de me despir para os pingos de chuva. Quis sentar ali debaixo dela e me deixar molhar. E deixar que me lavasse, de todo o mal do mundo.



9 comentários:

Guará Matos disse...

Que bom estar por aqui!!!
Quero convidá-la para conhecer o meu espaço, me seguir e eu a você também. É o JORNAL AFOGANDO O GANSO/ http://afogandooganso.blogspot.com.
Estou, junto com a Fundação RIbeiro, promovendo um sorteio de 20 livros e para participar deve ser um seguidor ativo e participativo.
Você deseja essas três coisas me seguir, ser seguida e participar do sorteio?
Lhe aguardo então.
Abraços.
@GuararemaMatos

Guará Matos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Folhetim Cultural disse...

Parabéns pelo blog...e pelo trabalho tenho um blog queria que pudesse conhece lo este é o endereço informativofolhetimcultural.blogspot.com
Ass: Magno Oliveira

Natasha Barcellos de Oliveira disse...

ei priscila...

muito bom o seu blog...
bjos

Georgia Soares disse...

Muito lindo mesmo.

Unknown disse...

Ahh eu amo chuva! E esse cheiro de terra molhada é mesmo muito bom! Puuxa, lindo texto. Lembrei de quando era criança e também brincava na chuva, mas o que tem acontecido é que ela tem me pegado muito mais depois de grande. Eu devia ter aproveitado mesmo quando era criança, na época que não passava chapinha... :p
Bjs!

Vitoria disse...

Sabe...eu nunca gostei da chuva pelo que ela trazia..mas hoje eu abro uma excessão só por causa do seu texto....
adorei ^^
beijoos

Anônimo disse...

ficou muito bom o texto! sinto uma sensação assim também com a chva, principalmente com aquelas que vem acompanhadas de ventanias (como voce disse), raios e trovoes. nossa, eu amo muito. esses dias que tenho aproveitado bastante essa chuva e o barulho do mar. é a melhor musica do mundo! :)

Amanda disse...

Chuva pra mim é sinal de alegria de bençoes...Me imagino enbaixo de uma chuva de sonhos...simplemente perfeito o textooo

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