Lembrou dos pés brancos com as unhas pintadas de vermelho. Pés pequenos e redondinhos tinha a menina. Borrocados pelas tentativas de embelezar-se com esmalte. Adorava o vermelho, não que lhe caísse bem, mas gostava de fingir ser uma grande mulher em frente ao espelho. Tinha na cabeça que mulheres maduras e seguras de si se pintam de vermelho. Embora soubesse que não eram bem as unhas dos pés que elas pintavam. Era a boca... mas batom só tinha rosa. Tudo bem, compensava de outro jeito.
Não se interessava muito em pintar as mãos, porque estas não lhe eram tão tentadoras quanto os dedos miúdos e grossinhos dos pés, tão gostosinhos de mexer... pintava-os, como se este fosse o maior ato de amor que alguém pode conceder a si próprio.
Depois, morria de vergonha antes de tirar a meia em frente ao namoradinho do colégio. Não gostava que ninguém visse aquele esmalte vermelho - é, aquele que fora roubado da gaveta da mãe - colorindo suas besteiras de menina. Sentiria-se um tanto boba se alguém descobrisse.
Ah, quanta bobagem! Lembrava, distraída. Sendo interrompida no mesmo instante por um alguém no final da calçada que lhe gritava "Moça!" e ela, para a sua própria surpresa, atendia. Estava de vestido como gostava de estar, mas desta vez não estava a girar e nem a suspender suas anáguas. Era moça e por isto o vestido era mais simples, tão simples que cabia ir com ele à farmácia de chinelos.
O esmalte era claro, desses sem cor, só pra fortalecer unha quebrada e para disfarçar os descuidos mesmo. Levou um susto quando, ao olhar para as unhas matizadas com cor-de-nada, lembrou dos pés pintados de vermelho. - Que informação mais inútil para o cérebro me trazer à tona! Mas, pensando bem, como pude ter me esquecido disto? - Estava indignada consigo mesma, embora achasse graça e estivesse feliz por lembrar. Remexeu um pouco mais lá do fundo e encontrou muitas mais histórias boas, trechos de conversas entre o grupinho de amigos, dias na praia, noites escrevendo poesias no diário ... dos sonhos! Lembrou dos sonhos. E até mesmo do dia em que a melhor amiga lhe pediu um beijo - Mas tem que ser na boca, pra ver como é que beija de língua. - Dos copos e mais copos de açaí no sol quente de Janeiro. E um biquíni que tinha? Todo listradinho, o seu preferido. E a flor. As cartinhas que recebia. Os bilhetinhos que enviou na festa junina, os bilhetinhos em anonimato que maldosamente enviava à mais querida amiga, fingindo ser um admirador. E os nomes rabiscados envolta de corações na beirinha da folha do caderno. Os cabelos insistentemente lisos, as meias coloridas, as saias curtas e as pernas grossas. E a vontade de que fossem finas, como as de modelo.
O dia em que ele lhe disse que era bonita. Ah, o menino da bicicleta. Tão admirável quando tinha os cabelos à mostra, reluzindo ao sol. A sineta do colégio despertando às 7:10 h. As turmas de todas as séries enfileiradas no pátio para a oração do dia. Hino nacional. Odiava ser escolhida para hastear a bandeira. E a vez em que descobriu um cd de Chico Buarque na estante do pai? Foi lindo. Foram dias lindos de música linda, até enjoar. O horário de assistir o desenho animado do Doug na televisão. Os anos que se passavam, sem nenhuma pressa.
A compulsão por comprar sorvete de graviola na volta do cursinho de inglês. O dia em que o melhor primo declarou ser gay. O mesmo dia em que o abraçou e o amou ainda mais por isto. Sua mãe lhe beijando a testa antes de sair de casa - " Vá, mas volte antes da meia-noite." - A festa em que perdeu o sapato, um pouco de dinheiro e um tanto de pudor. A primeira vez em que decidiu contar a pior das piores verdades para os pais. A vez em que foi perdoada só por contar a verdade. As discussões rotineiras com as primas mais nova. A mulher brava da diretoria mandando assinar a ficha de suspensão. O quanto os professores a amavam, mesmo assim. E o quanto ela os amava, também. O quanto era capaz de amar a todos, de um jeito que só menina boba sabe. Com todo coração.
Como pudera esquecer-se disto tudo? Era moça atarefada agora, talvez fosse isto. Era moça, ainda que fosse meio boba. Mas não era mais a mesma, suspirou. Ou ainda era? Será que sempre seria? Surgiu então a esperança. Apertou o passo até em casa. Jogou a sacola da farmácia em qualquer canto da sala. Espalhou as roupas da mala toda pelo chão. - Achei!- Gritou em um surto de entusiasmo. Sentou-se encurvada, debruçando-se sobre si mesma até alcançar a ponta do dedão. Vermelho, outra vez.


5 comentários:
Você esqueceu de uma coisa: O tênis rosa de menina criança que te fez feliz por uma semana, já no terceiro ano do ensino médio. Pra mim, você sempre será o melhor exemplo de mulher menina, poder e delicadeza, inteligência e distração, tudo assim... misturado como só você sabe fazer. Te amo muito muito, e pra mim você nunca vai deixar de ter as coisas lindas que eu tanto tenho saudade! ♥
Hahaha não sei porque, mas acho que conheço essa menina XD.
A gente muda. Mas enquanto as lembranças permanecerem vívidas, enquanto não esquecermos que podemos ser daquele jeito sempre quisermos, que aquilo é uma parte de nós, sempre dá pra dar um jeito de pintar as unas de vermelho de novo.
Beijo! Muitas Saudades!
Te inclui na brincadeira http://thoughtsbecome-things.blogspot.com/2010/12/7-coisas-que-pretendo-fazer-antes-de.html
esqueceu do dia em que pintou o cabelo de vermelho só pra fazer uma peça na escola do Pokemon, e esqueceu também do cuscuz com cachaça... alias, se eu for relembrar tudo aqui vai ser tenso, mas te falar, essa é a sua essência, moça menina... não perca nunca!
sinto tua falta, beijos
Que liiindo!!
É realmente muito triste quando a rotina tira todas as coisas simples que conservamos, que nos trazem essa alegria plena que só as pequenas coisas podem trazer! :)
Beijoos!
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