Não esperava que o texto anterior rendesse polêmica, hoje eu iria postar um texto sobre um outro assunto diferente, mas gostei muito das opiniões de vocês e não consegui ignorá-las. Fiquei refletindo sobre o assunto e me vi obrigada a postar aqui a minha resposta. Primeiro queria dizer que agradeço aos comentários, MAIS DISCORDO DE VOCÊS.
É que não acho que a mentira seja natural do homem. Não,o homem aprende a mentir com o tempo, pode aprender sozinho até. Mas não, não é a mentira que nasce com o homem, é o medo. Sim, o medo, instinto natural de sobrevivência, de proteção... Quem mente, mente por medo.
E a verdade não é impossível, eu não acho que seja ... nós, a sociedade, é que criamos em torno dela um pavor e desde pequenos aprendemos a ter medo da verdade.
O mais irônico é que este medo da verdade nos torna cada vez mais pessoas paranóicas, desconfiadas de que tudo seja mentira. O medo da verdade leva ao medo da mentira, isto não soa como um sistema? Pois é de fato um sistema. Óbvio, a sociedade é um sistema e como todo sistema, possui o seu modo de sobrevivência. E deste modo mais uma vez retomamos ao ponto de início: o medo, instinto para sobreviver.
Mães que tem medo que os filhos errem, como elas já erraram tanto, e escondem os fatos, e ameaçam e mentem. Mentem por cuidado, por receio, zelo, mas mentem. Não seria muito mais fácil chegar e dizer, "veja bem, eu já tive a mesma idade. E sei muito bem o que se passa pela sua cabeça agora, passava o mesmo na minha, é normal. Fiz exatamente a mesma coisa ou até pior, mas olhe, eu me estrepei toda, quebrei a cara, me dei mal. Errei. E queria te adiantar o caminho, não faça o mesmo, pro seu bem." Não é muito mais honesto?
Mais eficaz do que as ameaças hipócritas "fulaninho, se eu descobrir que você fez isso ..." E para que os pais não descubram os seus atos falhos os filhos mentem, por medo. E por medo um empregado não assume o seu erro, sua insatisfação, seu desespero, e com medo, fica mais desesperado. Por medo uma esposa não assume que já não sabe se ama o marido, sei lá por quais tantos motivos (medo da separação, de não conseguir pagar as contas sozinha, medo do que os outros vão pensar, medo da solidão) e na realidade fica cada vez mais sozinha por dentro. Faixadas.
E por medo de que estas faixadas venham abaixo o sistema continua sustentando farsas, hipocrisias, onde nada nem ninguém pode ser verdadeiro. Mas quem foi mesmo que disse que não pode? Não sei, mas disseram isso pra gente, a gente já nasce ouvindo, já nasce esperando o mal dos outros, a mentira. A gente já nasce com medo.
E justamente por acreditar no oposto eu já ouvi todo o tipo de comentário, que sou inexperiente e não sei nada a respeito da vida, que eu sou louca, liberal demais, que não penso no que falo e que não tenho pudor, ou que sou lunática e tudo o que eu penso é muito bonito mas não passam de meros devaneios. Mas eu discordo. O que eu penso não é bonito, nem cor-de-rosa. É duro, é frio, e às vezes tem gosto amargo.
E escolher estar fora de um sistema não é uma escolha simples, é escolher se sentir excluído, é escolher ser apontado, julgado, e mal interpretado. E aceitar certas verdades já me machucaram muito, ouvir certas verdades e recebê-las com o peito aberto já me cortaram a alma, já me bateram na cara, no ego, no sonho, em tudo. Me aceitar assim como sou, de verdade, doeu. E me privar de mentiras adoráveis e confortantes foi insuportável.
Optar pelo verdadeiro não é tão bom quanto um desvaneio, não, eu garanto. É escolher precisar de ouvir qualquer elogio só para aumentar a estima e não ouvir. É precisar de alguém que te diga que morreria pelo seu amor e privar-se disto. É trocar um lindíssimo poema de Camões por um bilhetinho escrito "gosto de estar perto de você." É banir qualquer metáfora encantadora, trocar palavra por atitude. É aceitar a dignidade de um sentimento simplório e aprender a gostar do que é simples. É necessitar ouvir que tudo vai passar, e ter que levantar-se em meio ao tormento e ir a luta, sabendo que não vai passar, que há dores que ficam pelo resto da vida e que a gente precisa aprender a lidar.
É preciso aprender a lidar com a verdade, mesmo que isto te faça perder o grande amor da sua vida, mesmo que isto te doa no ego, na alma e no sonho. Mesmo que você passe vergonha, que não consiga posar como o herói da moral para o seu filho, mesmo que se lasque inteirinho, mesmo que você corra o risco de perder.
As pessoas mentem tanto porque querem ganhar o tempo todo. Só querem ganhar, tirar vantagem sempre, mas a vida não é um jogo. É isto o que eles não entendem: a vida não é um jogo. E a verdade não é para quem tem medo de perder.
É preciso assumir a verdade, é preciso assumir o erro, é preciso assumir as consequências, é preciso assumir o rumo natural das coisas, é preciso assumir a si próprio. É preciso perder, faz parte, é necessário. No começo não é nada fácil, mas somente depois que as primeiras provas de fogo já houverem passado, verão como é descomplicado. Depois que contarem a verdade na pior das piores situações, sentirão como é bom ser livre. Como é leve. Mesmo que esta liberdade lhe custe a indignação do outro, e mesmo que o seu erro cause espanto a sua verdade causará ainda mais, muito mais. Respeito. É esta a palavra. A verdade por pior que seja impõe respeito pela coragem, e é também o próprio respeito ao próximo de não privá-lo da verdade. É dar a ele o direito de perdoar-te ou não. É respeitoso, nobre, justo.
Uma coisa que aprendi depois de ter sentido todas as dores que senti no início: não, na realidade, não é a verdade que dói. É a ilusão que machuca. É descobrir a farsa, cair lá do alto de surpresa para pôr os pés no chão, é isto que dói. O que faz a traição em todos os sentidos não são os fatos, mas as mentiras. São estas que doem. Penso agora que se eu não tivesse me cercado de tantas ilusões, tanto cor-de-rosa, não iria ter me doído nada, pois a verdade é mesmo simples quando se convive com ela desde o começo.
Tudo isto me lembra o caso de uma vez em que foi feita uma mostra de arte sobre o caos urbano e a vida cotidiana na minha faculdade, e fora implantada logo no centro do pátio de entrada uma escultura de terra com uma forma, digamos, inusitada. Confesso que eu mesma não conseguia ver em tal obra qualquer relação com o tema da exposição, e a única coisa que me vinha na cabeça a respeito da tal forma inusitada era a de que me parecia uma buceta – Esta coisa parece uma buceta, parece sim uma buceta enorme no centro do pátio, mas claro que não é, claro que não pode ser ... – e meus pensamentos foram logo interrompidos pelas risadinhas abafadas dos alunos dos outros cursos que assim como eu estavam parados no hall de entrada observando aquela escultura curiosa – Este povo de publicidade é muito doido e idiota, cambada que não tem o que fazer, vem e colocam essa buceta de terra enorme no pátio. – Era o que comentavam alguns. E entre críticas ao meu curso e risadinhas não contidas, todos os pensamentos convergiam para o mesmo ponto : "parece uma buceta, uma buceta gigante no hall de entrada."
Foi então que um dos alunos de engenharia metidos a soberanos que andavam com meios sorrisos dados de lado parou diante da autora da obra, e disse-lhe num tom debochado apontando para a escultura de terra:
- Parece uma buceta.
- Não. (Disse ela num tom de voz muito calmo.) Você está enganado pois não parece. É uma buceta.
E saiu com o sorriso aberto sem dar mais explicações, enquanto o menino do sorrisinho de lado permanecia estático em frente aos outros (sem nenhum sorriso agora) procurando um buraco qualquer no chão para sumir. – Mas é claro! – pensei eufórica ao concluir a minha interpretação sobre a obra e sua relação com o tema. O que mais além do órgão genital feminino pode representar tão bem a vida? Feito do elemento terra, elemento vivo, o oposto do asfalto morto do caos, mas é claro!
E passei a ver naquela obra uma genialidade tamanha, nem tanto pela estética, mas pela composição de sua idéia. Que maneira brilhante e inusitada de representar algo tão comum,e mesmo sendo um tema tão tachado e batido a autora fez com que se tornasse algo que realmente chamasse a atenção, e além de tudo fosse surpreendente. Comecei a perceber então, além de tudo, nesta obra uma provocação: pois a verdade estava ali tão crua e notória diante de nossos olhos e não conseguimos interpretá-la. Por que não conseguimos logo de início? Aceitar a verdade nunca é fácil. Procuramos outras explicações, floreamos, afinal, não podia ser aquilo... aquilo não era admirável, era feio, era real demais, não podia ser arte. Podia? Então buscamos outras hipóteses, sem nem passar por nossas cabeças que a verdade é bem mais simples e clara do que parece.


4 comentários:
Percebo que, de fato, conheces uma parte da verdade ..
bjo
História interessante da buceta de terra. :)
Um post longo não seria objetivo tão quanto explicativo foi. Ótima opinião e bem clara.
Sempre pensei, a verdade é a verdade. Existe a verdade sua, a verdade do alheio e a verdadeira verdade, e só essa é real. Opiniões e pontos de vista existem milhares. Mas verdade só existe uma.
Talvez você tenha interpretado mal meu comentário miga, mas levo em conta que está respondendo a todos que comentaram no post anterior.
Creio que todos têm suas experiências de vida, que amadurecem o ser e o faz enxergar a verdade mais claramente com o tempo, por bem ou por mal.
Inúmeras experiências temos para viver e delas extrair mais verdades. Ser sincero é uma dádiva, principalmente consigo mesmo.
Mas infelizmente continuaremos a nos deparar com mentiras e ilusões...cabe a nós fazer o melhor, sermos verdadeiros e trilhar nosso caminho da melhor forma possível.
É a lei da existência. Sem luz não há sombra, sem pobre não há rico e sem mentira não há verdade.
A mentira sempre estará por aí a vagar. E os bons sempre tentarão estar do lado oposto.
Poderia escrever um texto aqui. Mas já escrevi demais. RS
Belo post Pri e encerro com a mesma frase.
Tudo que for possível, que seja de verdade!
"E escolher estar fora de um sistema não é uma escolha simples, é escolher se sentir excluído, é escolher ser apontado, julgado, e mal interpretado"
Essa frase apertou meu peito até não poder mais.
Eu sou um fã da verdade. Sempre que as pessoas me pedem sugestões ou opiniões, a minha primeira ideia é: "Porque não é sincera de uma vez e fala isso tudo logo para a pessoa?" a resposta: "Você é doido, dar uma moral dessa? Vai ficar se achando".
É o medo de sair perdendo, como você bem disse. Mesmo dando esses conselhos, eu lanço mão de mentiras tb. A verdade é sempre melhor, mas as vezes a gente precisa dar uma volta para galgar um patamar impossível de ser alcançado pela verdade... depois volta-se ao normal...
Bjus. Saudades sua
concordo com a sua verdade... acho que a mentira não é natural do homem.. podemos percerber isso com as crianças sempre tão sinceras...
O ser mal interpretado é o que mais doi...
sou tão transparente e verdadeira... que acho que estou fazendo o bem para o proximo em ser assim o ruim é que nem sempre as pessoas vê assim...
queria ser um pouco menos transparente... não escolher a mentira... mas aprender a ficar quieta em certas ocasioes..
aaaaaaaaaaaaaaaah! vou pirar!!
É duro descobrir que não deveria ser eu de verdade...
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