4 de ago. de 2010

Por quanto?

Das tantas coisas que passam na minha cabeça eu poderia revelar um pouco menos da metade, talvez deva-se a isto o fato de eu ser uma pessoa calada (a princípio), porque quando eu decido falar eu falo, e como eu falo! Mas este nem é o problema, o problema é que eu insisto em escrever... Agora imagine um ser humano que consegue sofrer um acidente catastrófico ao fritar um ovo, ou aquela voz desafinada ao fundo do coral, o tipo de pessoa que canta sempre o refrão da música por nunca conseguir gravar muita coisa além disso, a amiga que sempre esquece das datas mais importantes e depois liga choramingando pedindo desculpas, a menina que chega na porta da festa e você pensa que é um mulherão até vê-la tropeçando, entortando o salto dançando meio desajeitada, te fazendo mudar de idéia. ( O que uma pessoa dessas poderia escrever?) Imagine agora uma criança com os dentes da frente nascendo desproporcionais aos outros dentinhos de leite, parecendo um hamster e vestindo um vestido de princesa grande demais, no estilo maria mijona porque a mãe comprou com o intuito de tapar os joelhos, sempre ralados como os de menino. É, pense na menina que sempre brincava com os meninos (não, não era por ser uma menina que de tão legal era aceita no clube do bolinha) era por exclusão mesmo, do grupo das menininhas meigas que carregavam lindas bonecas e seus carrinhos cor-de-rosa nas cestinhas de suas bicicletas, que por sinal nunca foram páreo para as minhas Barbies semi-carecas, maqueadas com canetinha. Quem disse que os meus brinquedos não eram legais? Azar o das meninas meigas que perderam uma grande oportunidade,cortar o cabelo das bonecas estilo hardcore era super aceitável e eu sabia disto desde pequena, elas é que eram muito over... mentira. Eu sempre quis brincar com elas, sempre quis saber maquear as bonequinhas ( e não sei até hoje, nem maquear bonequinhas quanto mais me maquear sem parecer o palhaço Bozo, err ok, vou prosseguir ...) sempre quis saber cantar, sempre quis saber cozinhar e conseguir sair de perto do fogão viva, chegar na festa linda e sorridente e sair dela não só sorridente, mas linda também, sem aquela cara de acabada com os olhos completamente borrados por sempre me esquecer do hímel e coçá-los. Sempre quis ser como aquelas mulheres fatais superproduzidas que nos seduzem só com os olhos nas capas de revista (mas nunca consegui e uso a desculpinha que ser despojada e natural é bem melhor), confesso, sempre quis dar estrelinha, ter uma memória melhor e saber puxar assunto. Mas, enfim, o que me sobrou foi escrever, então eu me rendo.
Começou assim de modo meio ingênuo, com um textinho para a mamãe na homenagem da escola e as professoras que insistiram nessa idéia não poderiam imaginar o mal que isso me faria: maldita tia Isa que adorava minhas mentirinhas escritas e me pedia para escrever mais e mais, me elogiando nas beiras das folhas do caderno. E, como não me sobravam muitos elogios por outros talentos, foi deste modo egoísta que passei a gostar de escrever: para impressionar a mamãe e a tia Isa, como uma criancinha superdotada que um pouco mais tarde pularia de série como consequência.
Mas não parou por aí, além de ser um ano adiantada e por isso ser sempre a mais nova da turma, as consequências não foram poucas. Quando eu vi estava completamente rendida por tal hábito e já escrevia coisas que não queria que mais ninguém lesse; Os meus segredos, as minhas vontades, os cometas que passavam voando pela minha cabeça... é, não tinha mais volta. Eu precisava escrever e agora não era para tia Isa, não, não. Simplesmente não existia motivo nenhum.
Tarde demais, estes, de precisar sem motivo, são os piores vícios. Agora me encontro no estágio agudo, no surto de dizer as coisas que eu não diria ... e o pior: tem vezes que resolvo escrevê-las aqui. Daí, quando me dá vontade de ler de novo o que eu escrevi em uma espécie de transe (pois não penso no que estou escrevendo e nem olho para o teclado enquanto escrevo), dou de cara com as barbáries e abobrinhas, faltas de vírgulas e de parágrafos que só noto quando um monte de gente já leu e interpretou à sua maneira. Então deixo pra lá, pois não vejo mais sentido em corrigir, uma vez que já fora interpretado não se deve tirar isto das pessoas.
Enfim, só não acho isto pior do que a minha infinita capacidade de me auto-sacanear quando já estou quase dormindo e resolvo, sem mais nem menos, começar a falar pra você tudo o que eu demorei o dia inteiro tentando disfarçar, tentando não dar bandeira e não parecer uma psicótica, uma doida qualquer sem controle nenhum dos impulsos e emoções, ciumenta sem razões para ser, exigindo coisas hipócritas que não posso exigir, falando várias merdas opiniões pessoais e episódios do meu passado, coisas que nem eu sabia que estavam guardadas na minha cabeça e que saem como borboletas voando atônitas de dentro do meu estômago por terem estado presas ali um dia inteiro, fazendo minhas mãos transpirarem de nervoso mais do que o normal.
Tanto esforço para nada, graças ao meu maldito hábito, maldita boca enorme e traidora que eu tenho, malditos textinhos para mamãe, malditos caderninhos com elogios da tia Isa, maldito você que sempre dorme depois de mim e que por isso me flagra neste estado perigoso do dia, maldita sinceridade, malditas menininhas meigas, malditas mulheres fatais, malditas borboletas que saem voando sem pedir licença. E então, sei lá o que fazer depois disso tudo, na verdade não tem muito o que fazer, não é? Não há como apagar a palavra dita (depois que ela sai já não é mais sua, mas sim de quem as ouviu.) Sem ter como voltar atrás, só sinto um pouco de vergonha, mas gosto também. Aí eu resolvo respirar fundo e aceitar a situação, me levanto e desisto de dormir, sento à sua frente ... fico olhando com um ar desafiador e debochado a sua cara de quem ainda está pasmo se recuperando do que ouviu.

- E aí, agora você me compra por quanto?

7 comentários:

Juliana disse...

Você me assusta as vezes e sempre me surpreende.
Isto é bom, sua inesperadinha. rs
beijos maluquete

Anônimo disse...

Num aguento quando voce faz essa sua cara de convencida metida a desafiadora. Li e imaginei, lembrei. Me dá vontade de te dar um soco de tão irritante que você é, mas até que vc fica bonitinha, vou confessar. kkk

Mariana disse...

Adorei essa história das bonecas pintadas de canetinha semi-carecas! Morri de rir só de imaginar! Oras, era o charme delas, e daí que as outras eram muito melhores maquiadas e bem vestidas? XD

Esse vício de escrever ainda mata a gente. Ou no mínimo, faz e ainda nos fará passar muita vergonha...

Um beijo

Carla disse...

HAHAHAHA,Welcome, para mim, você é normalíssima(não vou dizer normótica, pois a primeira vez que ouvi me chamarem assim, fiquei ofendida!)
bjo
saudadizinha *-*

Bianca disse...

Adorei!
Você sempre me surpreendendo!
Bjão =^.^=

Anônimo disse...

Um dia toda menina cresce e se identifica com o passado. ele faz parte do presente embora demoram um certo tempo pra perceber. Desde de pequena vc ja era diferente das outras meninas. Estamos sob constante influencia do mundo. digo mundo pra generalizar as influencias sobre nos. muitas vezes erramos em querer certas coisas que nao somos. talvez um dia vc seja esse mulherao,. mas talvez nao deva ser. isso depende de voce. quando crescemos aprendemos que temos o livre arbítrio e assim decidimos o que seremos.Ninguem esta a venda. porque cada pessoa é unica e tem um preço incalculavel.

Ps: eu te acho um mulherão sim. rsrs ;)
Antes de viajar eu qro te ver. Bjus

Anônimo disse...

Eu tenho a pequena impressão de que me vi nesse post :S

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