" Aos 30 anos você vai aceitar." E estremeci ao terminar de ouvir esta frase, pelo fato de ser praga rogada por mãe. Conversávamos sei lá sobre quantas coisas, mas considerem que em muitas delas haviam homens envolvidos. E, levem também em conta e incluam nesta conversa todas as falácias sobre namoros, relacionamentos e casamentos a palavra que em nenhuma hipótese deve ser pronunciada.
Brincadeiras à parte, enquanto estendíamos as roupas no varal, aquela que me deu origem me olhava com olhos irônicos enquanto ria das minhas explicações sobre dar fim a relacionamentos por motivos (óbvios) de não abrir mão da individualidade, de não aceitar grosserias, ordens, ou pedidos invasivos.
- " Sim mãe, para mim este é o ápice. Depois disso só há o declíneo. E se ninguém frear vai até cair. Eu dou fim mesmo antes de acabar. Talvez seja covarde da minha parte, mas é que não suporto ficar esperando para ver tudo ser espatifado, destruído e estraçalhado."
E ela me sorria como se já houvesse ouvido tal rebeldia juvenil nos seus próprios pensamentos e soubesse quão falhas eram estas teorias. Mas oras! Eu não era uma jovenzinha rebelde! Ou era? Ah, é que acho normalíssimas as minhas teorias e aliás, além de normais, muito saudáveis. Pois não entendo por quais motivos alguém necessitaria ou deveria sustentar algo que não é ... bom.
O que leva um ser humano a alterar o seu próprio sobrenome para ser posse de outra família? Posse. É o que me parece essa coisa de nome de marido no final. E, não que isso resuma tudo, afinal este nem é o verdadeiro problema, que seja um casamento por amor verdadeiro e bonito, enfim, para quê mantê-lo carregado nas costas a partir do ponto que não é mais leve?
Sei que existem muitas coisas envolvidas mas, o que seria mais importante do que a felicidade? Tudo bem, talvez filhos mas ... mas ... mas. Ah, esta coisa toda! Deve haver alguma solução prática. Não é possível...
-" Eu já fui assim também." - Ela interrompe meus pensamentos sussurrando, e eu lhe pergunto - "Me diz então, por que as pessoas com o tempo desistem de ser quem elas eram?" - Ela sorri um sorriso de pena, que talvez fosse por compaixão à minha ingenuidade -" As pessoas não desistem com o tempo, Priscila. Elas mudam."
Claro, não pude mais argumentar diante disto. E, com medo, comecei a pensar em quem eu seria aos 30. Senti um calafrio quando pensei nas possíveis coisas que poderiam mudar meu pensamento. Mais maturidade, talvez? Ou quem sabe eu passaria por experiências tão traumáticas que mexeriam comigo? E se eu me conformasse ou me esquecesse de quem fui? E se eu me tornasse muito melhor? Se pensar do outro jeito for melhor? Será? Seria? Por fim, consegui visualizar uma mulher de cabelos curtos, roupas confortáveis e pulseiras de artesanato coloridas nos pulsos, cuidando de algumas plantas, distraída. E, num breve instante a mulher que eu imaginava percebeu a minha presença e me olhou de perto, me deixando constrangida. Logo depois me sorriu um sorriso de anjo, assentindo como se já me conhecesse.
- " Por favor, seja lá quem for você, cuide bem de mim!" - Ordenei um tanto arrogante, justo para com aquela mulher que me parecia tão doce e não merecia o jeito como lhe tratei. Mas no fundo, sei que ela entendeu o meu medo e fiquei feliz em pensar que aquela poderia ser eu.
Ps: Um Feliz Niver pro meu Amigo Gabriel


3 comentários:
Você sabe que já sonhei com isso? Eu, aos 30 anos, com filhos, lendo um livro e esperando meu marido chegar. Não cheguei a ver o marido, mas me vi consideravelmente parecida comigo e meus filhos, lindos. Concordo contigo, e tenho mesmo medo de "crescer", abandonar as ideologias, me conformar, etc..
Parabéns pro Biel e amanha é o seu né? hehe
Te adoro
Era tudo que eu precisava ler!
É... é estranho pensar nisso. Eu nem gosto de pensar. E nem falta tanto preu chegar lá... Gosto tanto de mim agora... mas se eu gostar mais do eu que vou me tornar? Não sei, não sei...
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