Hoje resolvir parar um pouco para limpar a poeira de caixas antigas. Sei lá quantos meses faziam desde a última vez que resolvi fazer isto. E apesar de conhecer muito bem o conteúdo de todas aquelas caixas, a graça de ter caixas antigas sendo empoeiradas pelo descaso dentro do armário é que elas sempre nos reservam uma surpresa quando resolvemos reabrí-las. Como se nunca houvéssemos sabido o que nos aguardava ali. Pois bem, se alguém quiser saber o que eu guardo naquelas caixas digo sem rodeios: a minha vida inteira.
Primeiro abri uma caixa desorganizada com fotos aleatórias, cheia de épocas, cheia de cidades diferentes, cheia de rostos, e de mim também. Fiquei um tempo rindo com as fotos. Meu pai me segurando no colo, meu avô quando ainda não tinha cabelos brancos, uma velha amiga, a bisa Elisa indo colher milho comigo, minha mãe pré-adolescente se maqueando com as minhas tias igualmente jovens, a falecida cadela da vovó que me mordeu o dedo uma vez, uma foto da minha prima escrito "eu te amo,volta logo" no verso, com os amigos na festa de 15 anos, eu andando pelo bairro de calcinha no velocípede, pela primeira vez indo à escola, chorando com medo de cortar as unhas, estufando a barriga para imitar a minha mãe grávida nas fotos, andando a cavalo, crescendo, segurando meus primos no colo, mudando, vi também mais pessoas, muita saudade, viagens, amigos, uma foto da minha formatura, da milenar cadeira de dentista que ficava na casa da bisa Vitória e que me fazia tremer de medo, do casamento dos meus pais, de todos os lugares,cidades e estados que ja morei e mais incontáveis outras.
Depois foi a vez da caixa dos objetos que não me tomou tanto assim o tempo. Caixa esta que preservava apenas uma pulseira na qual estava escrito "amigas para sempre" , uma folha de árvore mofada que minha mãe insistia em querer jogar fora e eu insistindo em dizer não, um lazer que não funciona mais, uma boneca de porcelana trazida da Itália, moedas portuguesas, antigas moedas brasileiras e uma concha.
Passada a segunda caixa, fui para a terceira e a quarta de uma só vez abrindo-as simultâneamente. A maior guardava as cartas que eu recebi e a mais compacta os rascunhos das cartas que eu escrevi um dia. Talvez tenham sido as caixas com que eu tenha gasto mais tempo. Li quase todas as cartas, ri com a maioria delas e chorei também com algumas outras. Senti muitas saudades de muitas.
E se você me perguntar como assim "muitas saudades de muita" ? Respondo. De muita, oras! Mas é de tanta que eu nem sei explicar que coisas. E nem tudo são coisas também. Às vezes são só cheiros, às vezes eram só saudades do que eu estava sentindo naquele momento do passado, de bichos que eu tive, às vezes era saudade de gente também e outras de coisas que nem existiram.
Quanta coisa a gente passa, quanta gente faz parte da gente e a gente nem percebe. Quantas pessoas nos deixam, quantos pedaços da gente ficam parecendo faltar no peito, quanta dor a gente carrega. Mas que depois passam também, como tudo. E quantos pedaços nossos não estão aí espalhados pelo mundo, e a gente quase nem sabe. Quase nem percebe. Nem sei porquê, mas lembrei de uma menina que eu gostava tanto e que era tão recíproca comigo sem motivo. Achei na caixa um bilhete que me dera uma vez sem ter porquê. E não precisávamos de motivos, ela me sorria sempre que me encontrava e eu sorria também com o meu coração inteiro. E isto era o grande mistério. Eu bem que sabia que a gente se gostava, sei que ela também sabia, mas nunca trocamos muitas palavras. Ah, mas eu sinto tanta saudade de sorrir assim daquele jeito que era o meu segredo e o dela. Nunca mais a encontrei. Por onde será que anda? Será que ela tem tido motivos pra sorrir? Não tem como eu saber, a vida anda e a gente vai perdendo e vai ganhando também. Ia esquecendo de contar, com os sorrisos que ganhei aprendi a sorrir mais com ela. Acho que um dia eu consigo aprender como se sorri direito (igual a ela) de tanto praticar. Quem sabe. Fiquei então sentindo muitas saudades de muitas.


1 comentários:
Eu adoro fazer isso! Tenho um baú cheio de 'caixas antigas'... É tão bom reviver sentimentos, (até mesmo a saudade).
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