Me recordo da época em que eu trocava o dia pela noite… não me lembro muito bem se isso era muito bom naquela época, mas hoje em dia, com certeza é. morando aqui em Agen que você percebe realmente a movimentação do mundo que existe fora do quarto, e isso as vezes me da medo. gosto de ficar quieta no meu canto, escutando uma música baixa e pensando…
Minha mente viaja por mil lugares, criando situações que talvez sejam impossíveis de acontecer, mas esse silencio faz com que a realidade não venha estourar de uma vez. a realidade vem com o barulho das arvores que escuto nesse momento, que as vezes é cortada por algum carro que passa buzinando (o apartamento fica em uma encruzilhada e as pessoas tem esse costume de buzinar em qualquer esquina, né). tudo bem, volto minha concentração pro pensamento, fico rindo sozinha e as vezes até sinto uma tristeza, mas é bom, eu confesso.
São duas e quinze da manhã, não será necessário ir a aula já que a professora está acompanhando o projeto por e-mail e isso me conforta ainda mais, poder trocar o dia pela noite como hoje. costumava dizer que eu só vivia de madrugada, mas agora estou vivendo antes mesmo do sol nascer, no meio do transito, com os pensamentos longe visando algum vestígio de oportunidade de futuro planejado, eu vou vivendo… sem estar com os pés no chão.
7 de dez. de 2010
2 de dez. de 2010
Memórias
Lembrou dos pés brancos com as unhas pintadas de vermelho. Pés pequenos e redondinhos tinha a menina. Borrocados pelas tentativas de embelezar-se com esmalte. Adorava o vermelho, não que lhe caísse bem, mas gostava de fingir ser uma grande mulher em frente ao espelho. Tinha na cabeça que mulheres maduras e seguras de si se pintam de vermelho. Embora soubesse que não eram bem as unhas dos pés que elas pintavam. Era a boca... mas batom só tinha rosa. Tudo bem, compensava de outro jeito.
Não se interessava muito em pintar as mãos, porque estas não lhe eram tão tentadoras quanto os dedos miúdos e grossinhos dos pés, tão gostosinhos de mexer... pintava-os, como se este fosse o maior ato de amor que alguém pode conceder a si próprio.
Depois, morria de vergonha antes de tirar a meia em frente ao namoradinho do colégio. Não gostava que ninguém visse aquele esmalte vermelho - é, aquele que fora roubado da gaveta da mãe - colorindo suas besteiras de menina. Sentiria-se um tanto boba se alguém descobrisse.
Ah, quanta bobagem! Lembrava, distraída. Sendo interrompida no mesmo instante por um alguém no final da calçada que lhe gritava "Moça!" e ela, para a sua própria surpresa, atendia. Estava de vestido como gostava de estar, mas desta vez não estava a girar e nem a suspender suas anáguas. Era moça e por isto o vestido era mais simples, tão simples que cabia ir com ele à farmácia de chinelos.
O esmalte era claro, desses sem cor, só pra fortalecer unha quebrada e para disfarçar os descuidos mesmo. Levou um susto quando, ao olhar para as unhas matizadas com cor-de-nada, lembrou dos pés pintados de vermelho. - Que informação mais inútil para o cérebro me trazer à tona! Mas, pensando bem, como pude ter me esquecido disto? - Estava indignada consigo mesma, embora achasse graça e estivesse feliz por lembrar. Remexeu um pouco mais lá do fundo e encontrou muitas mais histórias boas, trechos de conversas entre o grupinho de amigos, dias na praia, noites escrevendo poesias no diário ... dos sonhos! Lembrou dos sonhos. E até mesmo do dia em que a melhor amiga lhe pediu um beijo - Mas tem que ser na boca, pra ver como é que beija de língua. - Dos copos e mais copos de açaí no sol quente de Janeiro. E um biquíni que tinha? Todo listradinho, o seu preferido. E a flor. As cartinhas que recebia. Os bilhetinhos que enviou na festa junina, os bilhetinhos em anonimato que maldosamente enviava à mais querida amiga, fingindo ser um admirador. E os nomes rabiscados envolta de corações na beirinha da folha do caderno. Os cabelos insistentemente lisos, as meias coloridas, as saias curtas e as pernas grossas. E a vontade de que fossem finas, como as de modelo.
O dia em que ele lhe disse que era bonita. Ah, o menino da bicicleta. Tão admirável quando tinha os cabelos à mostra, reluzindo ao sol. A sineta do colégio despertando às 7:10 h. As turmas de todas as séries enfileiradas no pátio para a oração do dia. Hino nacional. Odiava ser escolhida para hastear a bandeira. E a vez em que descobriu um cd de Chico Buarque na estante do pai? Foi lindo. Foram dias lindos de música linda, até enjoar. O horário de assistir o desenho animado do Doug na televisão. Os anos que se passavam, sem nenhuma pressa.
A compulsão por comprar sorvete de graviola na volta do cursinho de inglês. O dia em que o melhor primo declarou ser gay. O mesmo dia em que o abraçou e o amou ainda mais por isto. Sua mãe lhe beijando a testa antes de sair de casa - " Vá, mas volte antes da meia-noite." - A festa em que perdeu o sapato, um pouco de dinheiro e um tanto de pudor. A primeira vez em que decidiu contar a pior das piores verdades para os pais. A vez em que foi perdoada só por contar a verdade. As discussões rotineiras com as primas mais nova. A mulher brava da diretoria mandando assinar a ficha de suspensão. O quanto os professores a amavam, mesmo assim. E o quanto ela os amava, também. O quanto era capaz de amar a todos, de um jeito que só menina boba sabe. Com todo coração.
Como pudera esquecer-se disto tudo? Era moça atarefada agora, talvez fosse isto. Era moça, ainda que fosse meio boba. Mas não era mais a mesma, suspirou. Ou ainda era? Será que sempre seria? Surgiu então a esperança. Apertou o passo até em casa. Jogou a sacola da farmácia em qualquer canto da sala. Espalhou as roupas da mala toda pelo chão. - Achei!- Gritou em um surto de entusiasmo. Sentou-se encurvada, debruçando-se sobre si mesma até alcançar a ponta do dedão. Vermelho, outra vez.
Não se interessava muito em pintar as mãos, porque estas não lhe eram tão tentadoras quanto os dedos miúdos e grossinhos dos pés, tão gostosinhos de mexer... pintava-os, como se este fosse o maior ato de amor que alguém pode conceder a si próprio.
Depois, morria de vergonha antes de tirar a meia em frente ao namoradinho do colégio. Não gostava que ninguém visse aquele esmalte vermelho - é, aquele que fora roubado da gaveta da mãe - colorindo suas besteiras de menina. Sentiria-se um tanto boba se alguém descobrisse.
Ah, quanta bobagem! Lembrava, distraída. Sendo interrompida no mesmo instante por um alguém no final da calçada que lhe gritava "Moça!" e ela, para a sua própria surpresa, atendia. Estava de vestido como gostava de estar, mas desta vez não estava a girar e nem a suspender suas anáguas. Era moça e por isto o vestido era mais simples, tão simples que cabia ir com ele à farmácia de chinelos.
O esmalte era claro, desses sem cor, só pra fortalecer unha quebrada e para disfarçar os descuidos mesmo. Levou um susto quando, ao olhar para as unhas matizadas com cor-de-nada, lembrou dos pés pintados de vermelho. - Que informação mais inútil para o cérebro me trazer à tona! Mas, pensando bem, como pude ter me esquecido disto? - Estava indignada consigo mesma, embora achasse graça e estivesse feliz por lembrar. Remexeu um pouco mais lá do fundo e encontrou muitas mais histórias boas, trechos de conversas entre o grupinho de amigos, dias na praia, noites escrevendo poesias no diário ... dos sonhos! Lembrou dos sonhos. E até mesmo do dia em que a melhor amiga lhe pediu um beijo - Mas tem que ser na boca, pra ver como é que beija de língua. - Dos copos e mais copos de açaí no sol quente de Janeiro. E um biquíni que tinha? Todo listradinho, o seu preferido. E a flor. As cartinhas que recebia. Os bilhetinhos que enviou na festa junina, os bilhetinhos em anonimato que maldosamente enviava à mais querida amiga, fingindo ser um admirador. E os nomes rabiscados envolta de corações na beirinha da folha do caderno. Os cabelos insistentemente lisos, as meias coloridas, as saias curtas e as pernas grossas. E a vontade de que fossem finas, como as de modelo.
O dia em que ele lhe disse que era bonita. Ah, o menino da bicicleta. Tão admirável quando tinha os cabelos à mostra, reluzindo ao sol. A sineta do colégio despertando às 7:10 h. As turmas de todas as séries enfileiradas no pátio para a oração do dia. Hino nacional. Odiava ser escolhida para hastear a bandeira. E a vez em que descobriu um cd de Chico Buarque na estante do pai? Foi lindo. Foram dias lindos de música linda, até enjoar. O horário de assistir o desenho animado do Doug na televisão. Os anos que se passavam, sem nenhuma pressa.
A compulsão por comprar sorvete de graviola na volta do cursinho de inglês. O dia em que o melhor primo declarou ser gay. O mesmo dia em que o abraçou e o amou ainda mais por isto. Sua mãe lhe beijando a testa antes de sair de casa - " Vá, mas volte antes da meia-noite." - A festa em que perdeu o sapato, um pouco de dinheiro e um tanto de pudor. A primeira vez em que decidiu contar a pior das piores verdades para os pais. A vez em que foi perdoada só por contar a verdade. As discussões rotineiras com as primas mais nova. A mulher brava da diretoria mandando assinar a ficha de suspensão. O quanto os professores a amavam, mesmo assim. E o quanto ela os amava, também. O quanto era capaz de amar a todos, de um jeito que só menina boba sabe. Com todo coração.
Como pudera esquecer-se disto tudo? Era moça atarefada agora, talvez fosse isto. Era moça, ainda que fosse meio boba. Mas não era mais a mesma, suspirou. Ou ainda era? Será que sempre seria? Surgiu então a esperança. Apertou o passo até em casa. Jogou a sacola da farmácia em qualquer canto da sala. Espalhou as roupas da mala toda pelo chão. - Achei!- Gritou em um surto de entusiasmo. Sentou-se encurvada, debruçando-se sobre si mesma até alcançar a ponta do dedão. Vermelho, outra vez.
1 de dez. de 2010
Seja bem vindo Dezeeembro :D
"Mas o que mais quero, é que entenda a minha mensagem. Quando falo que mesmo sem conhecer você, e mesmo que talvez jamais conheça você, ria com você, chore com você (...) eu amo você. De todo o coração... Eu amo você"
Chaplin
Chaplin
30 de nov. de 2010
Falando por mim
"Dizem que a gente tem o que precisa. Não o que a gente quer. Tudo bem. Eu não preciso de muito. Eu não quero muito. Eu quero mais. Mais paz. Mais saúde. Mais dinheiro. Mais poesia. Mais verdade. Mais harmonia. Mais noites bem dormidas. Mais noites em claro. Mais eu. Mais você. Mais sorrisos, beijos e aquela rima grudada na boca. Eu quero nós. Mais nós. Grudados. Enrolados. Amarrados. Jogados no tapete da sala. Nós que não atam nem desatam. Eu quero pouco e quero mais. Quero você. Quero eu. Quero domingos de manhã. Quero cama desarrumada, lençol, café e travesseiro. Quero seu beijo. Quero seu cheiro. Quero aquele olhar que não cansa, o desejo que escorre pela boca e o minuto no segundo seguinte: nada é muito quando é demais."
Caio Fernando...
Caio Fernando...
24 de nov. de 2010
Estou chata, pensativa, enjoada (fisicamente e de todo o resto), pensando mil vezes antes de fazer, querendo escrever e não me permitindo, deixando sair apenas o que é possível e mais sem graça de mim. Eu queria que as pessoas me dessem motivos pra me deixar ser quem eu quero e sou. Já basta minhas razões contra mim.
17 de nov. de 2010
Um certo alguém um dia me disse que a minha frieza com as pessoas crescia e tomava proporções preocupantes, disse que eu não me importava com a falta que elas faziam e que eu estava cada vez mais fechada na minha própria órbita. Concordei. Respondi que se eu me tornei o que tenho sido, grande parte era culpa das próprias pessoas, eu já fiz muito pelos meus amigos, já fiz mais ainda por amores que passaram, e nada... nada valeu tanto a pena. Mas tudo bem... não se pode guardar mágoas e nem viver se baseando em frustrações, levantei a cabeça e decidi que seria novamente uma pessoa afetuosa e que poderia demonstrar meus sentimentos mais uma vez a qualquer que fosse a pessoa escolhida. Adivinha só o que aconteceu? Indiferença, nenhuma consideração, nenhuma retribuição... NADA. Tiro a minha frieza do armário, visto aquela armadura que já tem as formas do meu corpo e sigo em frente. Se vai fazer falta? Provavelmente sim, mas passa! Sempre passa. Eu nunca gostei de deixar as coisas por serem ditas, mas dessa vez, não vale a pena mesmo gastar ainda MAIS saliva.
" Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu. "
" Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu. "
9 de nov. de 2010
Nua
A chuva sempre fora para mim motivo de ser alegre. E correr nela era como ser dona daquela água toda e da imensidão do céu.
Então pisava nas poças para ver a lama dançando junto comigo, achava lindo, lindíssimo.
Achava também que todo mundo fica mais bonito debaixo da chuva. Que todo mundo deveria ser amigo do vento pra ver que correr contra ele não doía não. O vento sempre foi um amigo tão bom no meu conceito porque foi o único amigo que eu encontrei que não me maltratou quando fui contra. Pelo contrário. Eu amava correr contra o vento na chuva, e dançar e cantar. Era uma coisa tão boba...mesmo assim me sentia imensa na chuva como se o céu todo pudesse caber naquilo e eu aplaudia quando a chuva vinha. E a chuva vem na maioria das vezes de surpresa e eu morria de saudade dela quando esta só ameaçava vir e não vinha... pois então quando me pegava desprevinida na rua eu não me importava. Até sorria, porque criança não tem motivos para não gostar da chuva.
Hoje está chovendo lá fora... Desliguei a música que estava ouvindo para escutar a chuva. Este som de gosto doce. Barulho de chuva. Estou dentro de casa e com a janela fechada não dá para sentir muito o cheiro que me lembra a felicidade. É. Creio que se a felicidade pudesse ter um cheiro seria o de terra molhada por chuva. Por chuva lenta com pingos espessos, que é o tipo que mais me faz ser alegre.
Está chovendo desde cedo para dizer a verdade. Mas é que eu estava muito preocupada em não molhar os livros que comprei ontem antes de entrar no ônibus. Sentei na poltrona aflita por me livrar dos pingos que escorriam dos cabelos um pouco encharcados, e que mesmo depois de úmidos ainda me faziam tremer de frio. Não me lembro de antes ter sentido frio com a chuva. Quero dizer, não este frio que dói, que fica espetando o peito da gente. O frio que eu sentia antes era tão gostoso quanto lambuzar a ponta do nariz numa lambida no sorvete. E aí eu cheguei em casa, tomei um banho quente e vim pro computador, quase esquecendo que chovia. Acho que a chuva até deve ter se decepcionado um pouco, porque deu trégua. Senti toda a culpa.
Só agora percebo-a. E o quanto ela está triste! Me senti inteiramente melancólica com a chuva. Fui até a porta e fiquei quieta espiando. Não me achei digna de ir e me infiltrar lá debaixo. Sei lá, me sobrou muita saudade de fazer isto mas me faltou aquele ânimo ingênuo e sem vergonha que finge se esquecer de que a mãe vai brigar quando chegar em casa. Senti falta de me sentir parte da chuva, de ser inteiramente pura, inteiramente boba, inteiramente alegre, inteiramente transparente. Comecei a pensar que crescer não é mais se tornar um monte de coisas. Nem ser dona do mundo como eu pensava que eu fosse ser. Eu queria ser bailarina... e eu percebi que eu já havia sido a mais bonita bailarina de todas quando dançava debaixo da chuva e que sem ela era mesmo impossível de ser. Hoje até estudo música e dança, mas não é para ser bailarina. Não dá pra ser porque crescer também é deixar de ser um monte de coisa. Descobri que ganhar o mundo não era nada,porque eu havia deixado de ser a dona do céu. Tive vontade de chorar sem ter bem um por quê.
Tive vontade de ser mais humilde nessas horas e não ter vergonha de me despir para os pingos de chuva. Quis sentar ali debaixo dela e me deixar molhar. E deixar que me lavasse, de todo o mal do mundo.
Então pisava nas poças para ver a lama dançando junto comigo, achava lindo, lindíssimo.
Achava também que todo mundo fica mais bonito debaixo da chuva. Que todo mundo deveria ser amigo do vento pra ver que correr contra ele não doía não. O vento sempre foi um amigo tão bom no meu conceito porque foi o único amigo que eu encontrei que não me maltratou quando fui contra. Pelo contrário. Eu amava correr contra o vento na chuva, e dançar e cantar. Era uma coisa tão boba...mesmo assim me sentia imensa na chuva como se o céu todo pudesse caber naquilo e eu aplaudia quando a chuva vinha. E a chuva vem na maioria das vezes de surpresa e eu morria de saudade dela quando esta só ameaçava vir e não vinha... pois então quando me pegava desprevinida na rua eu não me importava. Até sorria, porque criança não tem motivos para não gostar da chuva.
Hoje está chovendo lá fora... Desliguei a música que estava ouvindo para escutar a chuva. Este som de gosto doce. Barulho de chuva. Estou dentro de casa e com a janela fechada não dá para sentir muito o cheiro que me lembra a felicidade. É. Creio que se a felicidade pudesse ter um cheiro seria o de terra molhada por chuva. Por chuva lenta com pingos espessos, que é o tipo que mais me faz ser alegre.
Está chovendo desde cedo para dizer a verdade. Mas é que eu estava muito preocupada em não molhar os livros que comprei ontem antes de entrar no ônibus. Sentei na poltrona aflita por me livrar dos pingos que escorriam dos cabelos um pouco encharcados, e que mesmo depois de úmidos ainda me faziam tremer de frio. Não me lembro de antes ter sentido frio com a chuva. Quero dizer, não este frio que dói, que fica espetando o peito da gente. O frio que eu sentia antes era tão gostoso quanto lambuzar a ponta do nariz numa lambida no sorvete. E aí eu cheguei em casa, tomei um banho quente e vim pro computador, quase esquecendo que chovia. Acho que a chuva até deve ter se decepcionado um pouco, porque deu trégua. Senti toda a culpa.
Só agora percebo-a. E o quanto ela está triste! Me senti inteiramente melancólica com a chuva. Fui até a porta e fiquei quieta espiando. Não me achei digna de ir e me infiltrar lá debaixo. Sei lá, me sobrou muita saudade de fazer isto mas me faltou aquele ânimo ingênuo e sem vergonha que finge se esquecer de que a mãe vai brigar quando chegar em casa. Senti falta de me sentir parte da chuva, de ser inteiramente pura, inteiramente boba, inteiramente alegre, inteiramente transparente. Comecei a pensar que crescer não é mais se tornar um monte de coisas. Nem ser dona do mundo como eu pensava que eu fosse ser. Eu queria ser bailarina... e eu percebi que eu já havia sido a mais bonita bailarina de todas quando dançava debaixo da chuva e que sem ela era mesmo impossível de ser. Hoje até estudo música e dança, mas não é para ser bailarina. Não dá pra ser porque crescer também é deixar de ser um monte de coisa. Descobri que ganhar o mundo não era nada,porque eu havia deixado de ser a dona do céu. Tive vontade de chorar sem ter bem um por quê.
Tive vontade de ser mais humilde nessas horas e não ter vergonha de me despir para os pingos de chuva. Quis sentar ali debaixo dela e me deixar molhar. E deixar que me lavasse, de todo o mal do mundo.


